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Joana

um mundo cheio de histórias para contar

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02
Abr17

VIVER EM LONDRES | Porquê Londres?

Joana Santos
 

O mês começou com duas novidades aqui no blogue (e deixem-me agradecer pelas lindas mensagens de parabéns e sorte que recebi de todos vocês!). Mas, e como juntamente com duas novidades vêm sempre mais umas quantas, a publicação de hoje inicia, assim, um conjunto de outras publicações que já queria fazer há muito tempo mas só agora fazem sentido. Se já sabem que novidades são estas de que vos falei ontem, podem continuar a ler texto. Se não sabem, carreguem aqui

 

Prontos? Ora, visto que vou deixar a minha cidade londrina e aventurar-me novamente pelas ruas cheias de sol daquela que sempre foi a minha casa - Lisboa - decidi tornar estes vinte e um dias que antecedem a minha mudança para vos contar tudo sobre Londres: como é viver aqui, porque escolhi Londres, o que aprendi com esta cidade, o que vos aconselho a fazer se quiserem viver em Terras de Sua Majestade... Portanto, um verdadeiro manual de vida londrina. Parece-vos bem? 

 

Ao longo destes vinte e um dias (e sempre que vocês precisarem) podem enviar-me e-mails, comentários, mensagens com questões sobre a vida em Londres que gostassem de ver respondidas e, claro, se tiverem sugestões sobre publicações, por favor, contem-me tudo. 

 

Vamos a isso então? Está aberto, oficialmente, o mês mais londrino de sempre aqui no blogue! 

 

E, para começar, obviamente, começa-se pelo princípio: nada mais nada menos do que a razão pela qual decidi vir, a minha partida e como foram os primeiros tempos aqui.

 

Os meus últimos tempos em Portugal não foram fáceis. Não só porque o tempo parecia muito: estava em casa, sem trabalhar, à espera de uma viagem de avião que parecia nunca mais chegar; como, por outro lado, o tempo parecia pouco: para me despedir de toda a gente, para estar com aqueles que mais falta me fazem agora.

E depois vim. Fiz a tal viagem de avião com as lágrimas nos olhos o tempo todo: porque tinha medo de crescer, de estar sozinha e porque nunca pensei ser mesmo capaz; mas também com um sorriso gigante: estava a sair totalmente da minha zona de conforto e a ser capaz de fazer aquilo que nem eu acreditava ser capaz de fazer.

 


 

Hoje, olhando para trás, aquelas horas entre abraçar a minha família pela última vez em muitos meses e o momento que cheguei àquela que seria a minha casa por tempo indeterminado, foram as horas mais estranhas da minha vida: era um sentimento agridoce, estranho, bom e mau ao mesmo tempo. A dúvida misturava-se com a certeza e tanto tinha vontade de desistir como de nunca mais olhar para trás.

As primeiras duas, talvez três, semanas foram como um sonho (nem sempre necessariamente bom, mas eu não sentia que estivesse a viver realmente nenhum daqueles dias). Dividi o tempo entre entrevistas de emprego (uma para nanny, outra para uma loja de souvenirs e aquela que acabou por se tornar numa oferta que aceitei, numa loja de materiais de construção, para a posição de assistente de loja), candidaturas para outras trinta mil funções diferentes e passeios pelos pontos mais conhecidos desta cidade e outros tantos passeios por sítios não tão conhecidos assim. Dividi o meu tempo entre novas pessoas e pessoas antigas: chamadas de skype, visitas de e a amigos, conversas com desconhecidos em pubs. Dividi o meu tempo entre chás, livros e saudades.

Nesta altura, eu vivia na casa de uma senhora super querida, britânica, chamada Ros. Quase não falávamos porque eu morria de vergonha do meu nível de inglês, que, diga-se de passagem, não era assim tão mau. No entanto, ela tentava bastante conversar comigo e ajudar-me a sentir-me mais confortável. Um dia, ela desafiou-me a cozinhar um prato português e ofereceu-se para complementar o jantar com uma sobremesa inglesa. 

Fiz Bacalhau à Brás. Ela cozinhou crumble de maçãs que colheu do seu próprio pomar. 

Durante o jantar, a inevitável pergunta foi feita: "Porque é que vieste para cá?". Durante mais tempo do que aquele que me pareceu aceitável, tentei pensar numa resposta. Construí-la. Desenhá-la. Fazê-la sair no inglês mais perfeito possível. Fazer-me entender, sem que eu me entendesse. Não me ocorria nada. Nenhuma resposta suficientemente boa, suficientemente crescida e adulta. E, desta vez, nem era por ter medo de falar noutra língua que não é a minha. Simplesmente não tinha resposta.

 

"Não sei. Não sei porque vim nem porque é que estou aqui. Só senti que o tinha de fazer. E fiz."

 


 

Foi isto que me saiu. Em inglês. Num inglês não tão perfeito mas o suficiente para me fazer entender. Durante todo o tempo que estive em Portugal, tentei sempre arranjar uma razão para vir: quero estudar yoga num país com mais oportunidades para tal, quero ter oportunidades de emprego, quero melhorar o meu inglês. Naquele dia, nenhuma dessas razões era a maior razão para ter vindo e, por isso, mais do que explicá-lo a alguém eu estava a responder a mim própria. Não havia nenhuma razão racionalmente explicável. A razão estava dentro do meu coração. E essa era a razão para estar aqui.

 

Sempre fui assim. Sempre segui aquilo que sentia dentro de mim. Mesmo sem saber porque é que sentia determinada coisa. E quando em 2011 pus os pés neste país pela primeira vez senti que tinha de vir para cá. E vim. Em 2015. Sem razões. Só porque aquela sensação que tenho sempre no estômago me dizia que tinha de vir.

A senhora olhou para mim surpreendida e disse que era uma razão perfeitamente válida. E, de repente, senti-me tão melhor comigo mesma. Não tinha admitido a mim mesma que não havia nenhuma razão para ter vindo para cá a não ser porque sentia que tinha de vir até àquela noite. Não admitia porque me ia sentir criança, inconsciente, louca. Teria sido isso que muita gente me chamaria se tivesse respondido isto à pergunta "Porque é que vais embora?" quando me a fizeram em Portugal.

 


 

Hoje, quase dois anos depois desta conversa, continuo a sentir que a resposta que dei foi uma resposta mais do que válida. Fui eu, sincera, a colocar o meu coração na boca e deixá-lo falar. Hoje, quase dois anos depois de ter deixado Portugal, gosto de acreditar que a razão maior para esta mudança foi o meu coração saber que era aqui que estava a sua metade. Mas, mesmo assim, continuo a responder orgulhosa que, a primeira razão da minha mudança foi não ter razão, foi uma sensação no estômago a empurrar-me. E só depois falo de todas as outras razões racionais que descobri aqui que seriam motivos para me fazer ficar.

 

Por isso, vão. Vão sempre atrás da vossa voz. Mesmo quando ela fala baixinho. Vão de braços abertos, à procura de tudo e de nada. Ninguém sabe as maravilhosas aventuras que a vida vos reserva do outro lado do mundo.

 

Com amor,

 

Joana

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