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Joana

um mundo cheio de histórias para contar

Joana

um mundo cheio de histórias para contar

19
Set17

VIVER EM LONDRES | Como chegar a Londres & Oyster Card

Joana Santos

Há algum tempo que andavam a pedir-me esta publicação, pois é das que mais suscita dúvidas, tanto a quem escolhe Londres como a sua casa como também àqueles que só lá estão de passagem. Afinal de contas, qual é a melhor forma de chegar ao centro da cidade partindo dos diferentes aeroportos? E de que forma nos podemos deslocar sem gastar rios de dinheiro? Vamos descobrir.

Na hora de comprar um bilhete de avião com desino a Londres, o aeroporto de chegada pode ter uma grande influência no preço total da viagem. De facto, o único aeroporto que fica no centro da cidade, tornando possível partir e chegar a ele através das linhas de metro, é Heathrow. Este é o maior e mais conhecido aeroporto do Reino Unido. Mas, por ser de tão fácil acesso, é também aquele que recebe os vôos de companhias aéreas mais premium, como é o caso da British Airways e da TAP. Para quem, como eu, tem preferência pela Ryanair e EasyJet (porque há sempre promoções, se estivermos atentos), não há outra hipótese senão a de voar para Gatwick, Luton ou Stanstead (para quem parte de Lisboa, este é, na maior parte das vezes, o aeroporto de destino).

Salvo raras excepções, Heathrow nunca foi o meu aeroporto de chegada ou partida e, portanto, durante estes dois anos, tive de procurar sempre as opções mais em conta para me deslocar de e para os aeroportos alternativos. E cheguei à conclusão de que não há nada melhor do que o EasyBus. O EasyBus é um autocarro que faz as viagens entre o norte, sul, este e oeste de Londres e os aeroportos de Luton, Gatwick e Stanstead. E, se comprarmos o bilhete com algumas semanas ou meses de antecedência, pagamos apenas £1. Ou seja, o equivalente a 1.15€. 

 

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Ora, então, o que eu costumo fazer é: compro o bilhete de avião em promoção e, logo de seguida, compro o bilhete de autocarro, para conseguir o melhor preço. Entrando no portal do EasyBus, devem criar uma conta e depois escolher o aeroporto de chegada e o destino mais perto do local onde vão ficar. Por exemplo, chegando a Stanstead podem escolher um autocarro que vos leve às grandes estações de Victoria, Paddington e King's Cross, onde encontrarão outros meios de transporte disponíveis para outros pontos da cidade, ou, então, a zonas mais residenciais como Finchley Road, Golders Green e Stratford. Os autocarros que partem de Luton deixam-vos nos mesmos locais daqueles que partem de Stanstead, acrescentando à lista também a zona de Brent Cross.

Se, por sua vez, o vosso aeroporto de chegada é Gatwick, no sul de Inglaterra, terão à vossa disponibilidade autocarros que vos deixam mais a sul de Londres, como é o caso de Vauxhall e de Stockwell, mas também existe a possibilidade de escolher um autocarro para Victoria Station. 

Se o preço não é o suficiente para vos atrair, deixem-me que vos diga que este serviço funciona durante 24 horas. Portanto, mesmo que cheguem ao aeroporto à meia noite, terão sempre uma forma fácil, barata e segura de viajar até ao centro de Londres. E, como Londres nunca pára, em qualquer ponto da cidade encontrarão uma estação de metro ou outro autocarro que vos deixe no exacto local onde ficarão a dormir. 

O que eu e o Gui costumávamos fazer nas nossas viagens era tão simples quanto reservar lugares no EasyBus, geralmente até à estação de Victoria, e depois, se já chegássemos muito tarde, apanhar um Uber que nos deixásse exactamente à porta de casa. Em Londres (e, no geral, em quase todo o lado), a Uber funciona muito melhor do que os serviços de táxi. 

Existem outras opções, claro. É o caso do Gatwick Express ou do Stanstead Express: comboios rápidos (apenas com três paragens cada um) que nos trazem do aeroporto a sul e do aeroporto a norte de Londres até ao centro da cidade. Usei cada um deles apenas uma vez e porque já não havia bilhetes para os horários pretendidos no EasyBus. A verdade é que, embora sendo mais rápidos, são também muito mais caros: cada viagem custa cerca de £15, o equivalente a 16.90€. Ou ainda o MiniCab, um género de táxi. Esta é a opção preferida de quem chega ou parte de madrugada, mas, tendo em conta que uma viagem pode custar cerca de £100 (113€), nunca foi uma opção minha, que viajo sempre de forma a gastar o menos possível e a aproveitar o mais possível.

Mas e quando chegamos a Londres? Qual é a maneira mais simples de nos desclocarmos?

Em Londres, existe um cartão de viagens, semelhante ao Lisboa Viva ou ao Andante, de seu nome Oyster Card. Eu sei: é um nome engraçado. Este cartão pode ser carregado com valores monetários tão vastos, que vão das £5 até às £100, e permite-vos andar por toda a cidade, de metro, de autocarro e de comboio. Ao chegar a uma estação, dirijam-se a uma qualquer máquina de compra de bilhetes e carreguem na opção Oyster Card. Vai-vos ser cobrado um valor de £5 pelo cartão, que vos é devolvido depois, se assim o entenderem. Para quem apenas está na cidade de passagem, £30 é o suficiente para fazer os percursos turísticos mais habituais em quatro dias. Todo o dinheiro que sobrar, inclusivamente as £5 da compra do cartão, é-vos devolvido no final da vossa estadia. Para tal, apenas têm de se dirigir a qualquer máquina que diga "Oyster Refund". 

 

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NUNCA, excepto se só lá estiverem por um dia, comprem bilhetes diários. Muitas vezes, os turistas são levados a pagar mais por um bilhete diário (cinco bilhetes diários, se lá estiverem cinco dias), gastando o triplo ou o quadruplo do que gastariam se carregassem um Oyster Card. 

Para quem acabou de chegar para viver, o melhor mesmo é comprar a opção semanal do Oyster, mas apenas válido da zona 1 à zona onde residem. Por exemplo, quando cheguei, estive um mês na zona 3. Mas deslocava-me frequentemente para a zona 1, não só para entrevistas de emprego, como também para visitar amigos e passear pela cidade. Por isso, durante aquele mês, todas as semanas carregava o Oyster e deslocava-me livremente. Quando me instalei na nova casa e percebi a zona em que ia trabalhar, passei a adquirir o "passe" mensal, entre a zona 1 e 3: morava na 2, trabalhava na 3, mas, nas minhas folgas, passeava também pela zona 1, pelo que me compensava mais ter as três zonas de metro. Com o tempo, vão perceber qual é a opção que funciona melhor para o vosso estilo de vida.

Espero ter-vos ajudado! Caso precisem de dicas mais concretas ou ajuda específica na compra dos bilhetes, falem comigo! O e-mail é: onbeingjoana@gmail.com! :)

16
Set17

VIVER EM LONDRES | A minha vida em casas

Joana Santos

Prometi que vos contava a história das casas onde vivi durante os meus dois anos em Londres e vou cumprir. A verdade é que gosto de falar delas, porque cada uma significou uma etapa diferente e cada uma guarda uma parte da minha vida naquela cidade.

Antes mesmo de ter embarcado nesta aventura, já sabia qual seria o primeiro lugar onde ia parar. Encontrei uma casa perfeita, no bairro de Leytonstone, graças à ajuda preciosa da minha professora de yoga, a Marina. Ela conhece sempre alguém em alguma parte do mundo, graças às viagens que faz. Por isso, falou com uma amiga, a Jessica, também professora de yoga, que por sua vez falou com a Ros, uma senhora muito querida e extremamente preocupada com a natureza e o ambiente, que construiu uma casa sustentável e alugava os seus quartos no AirBnb. 

Quando conheci com a Ros e vi as fotografias daquela que ia ser, durante um mês a minha casa, fiquei mais do que encantada. A casa era enorme, cheia de sol, de janelas altas e ladeada por um quintal biológico. Para além da dona, só partilharia a casa com uma gata, chamada Kitty. 

No dia 30 de Junho de 2015, tremia quando abri aquela porta da Wallwood Road. Hoje, ainda me lembro do cheiro daquela casa, do sabor do pão de todos os pequenos-almoços e da primeira chuva que vi cair pela janela do quarto. 

 

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Na cozinha não entrava carne, o lixo orgânico era levado para a compostagem e à porta de casa deixava sempre os meus sapatos, para os trocar por uns chinelos felpudos que a Ros tinha sempre disponíveis. O meu lugar preferido era a sala: livros sobre permacultura, sobre economias circulares e medicina natural enchiam as estantes e havia sempre um chá quente para acompanhar as minhas tardes naquele lugar. 

Fiquei mais do que o tempo inicialmente combinado porque me sentia genuinamente bem ali: foi lá que aprendi a ter confiança para falar inglês, que comi o melhor crumble de framboesas e que me aventurei pela primeira vez no mundo do vegetarianismo. Foi a única casa que partilhei com alguém inglês.

De lá, depois de três viagens de ida e volta, cheia de sacos e comida a descongelar, mudei-me para Finsbury Park, mais concretamente para Moray Mews. Apaixonei-me pela casa assim que a vi: colorida, com um cheio a tarte de ruibarbo, gigante e com um quarto a mais para que pudesse trazer quantas visitas assim desejasse.

 

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Partilhei-a durante oito meses com um casal francês e foi nela que vivi os momentos mais surreais de toda a minha vida em Londres: o vidro do forno que explodiu, os alarmes de incêndio a dispararem sem razão, uma passagem de ano para a qual ainda não arranjei descrição possível. Foi também lá que recebi as primeiras visitas: a minha mãe, o meu pai, muitos amigos e até de uma pessoa que, embora não conhecesse, ficou por um mês, e tornou-se das mais importantes naquela cidade. 

Foi aqui que pude, pela primeira vez na vida, decorar o quarto ao meu gosto: cor de rosa e cinzento, com uma fita de luz por cima da cama. Foi também aqui que construí a minha primeira árvore de Natal longe de casa, que descobri o quão bons são ovos mexidos com torradas e que comecei a perceber que a Joana que tinha voado para Londres, munida de poucos planos e muitos sonhos, tinha crescido e construído para si própria um caminho feliz.  

 

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Às vezes, tenho saudades da chuva a cair no telhado e de adormecer a olhar para o céu, através das janelas no tecto por cima da minha cama. Às vezes, tenho saudades de ver os aviões a sobrevoarem o quarto e das dúvidas que a vida me trouxe naquela altura. Às vezes, tenho tantas saudades daqueles dias só porque, aquilo que se seguiu, foi a época mais feliz de toda a minha vida naquela cidade. E eu adorava vivê-la outra vez.

Num momento de incerteza, saí daquela casa e fiquei uma semana num estúdio duas ruas abaixo daquela. Foi o sítio mais estranho onde vivi: a casa era húmida, sem espaço para tudo aquilo que fui acumulando e cheirava a kebab, culpa de um café turco por baixo do prédio. Tenho muito poucas memórias dessa semana, mas recordo na perfeição o dia em que, de malas arrumadas, fechei a porta do número quatro de Fonthill Road e dei início a uma vida nova do outro lado da cidade. 

Dias antes, tinha conhecido o Gui e o André. O Gui é hoje o meu namorado e o André o nosso melhor amigo. Mas nem sempre foi assim. Em Janeiro do ano passado, eles eram perfeitos desconhecidos, numa cidade gigante, que abriram as portas da Amelia House, em Hammersmith, para tomar conta de mim: o Zé Sem-Abrigo, como carinhosamente me chamaram. Ajudaram-me a transportar duas malas de viagem e sacos infinitos numa viagem de 40 minutos entre o norte e o oeste de Londres. Sentado no banco do metro, o Gui calçou as minhas pantufas e eu percebi que, perto daqueles dois, tudo ia ficar bem.

Seguiram-se três semanas que vou guardar para sempre: sessões de cinema antes de adormecer, conversas sobre a vida pela noite fora, idas a Cardiff sem estar à espera, música e muitas horas passadas a rir por causa de uma ideia inovadora que consistia em abrir uma banca de limonada, chamada LemonHurst. Quis a vida que, no final de Fevereiro, regressasse a Portugal. Despedimo-nos os três, com um abraço gigante, na China Town. Não sabíamos quando nos voltaríamos a ver. 

A verdade é que voltei, para fazer uma surpresa ao André, no dia do seu aniversário, apenas um mês depois. Sentia-me verdadeiramente feliz naquela casa, que não era minha. Em Junho, mudei-me definitivamente: desta vez, com certezas e planos. 

 

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Passei uma semana a arranjar espaço para as minhas coisas no meio da vida de três rapazes. Tudo isto de forma muito clandestina; afinal de contas, a senhoria não sabia que, naquela casa, de decoração duvidosa, vivia uma rapariga.

Por essa razão, eu e o Gui decidimos procurar uma casa só para nós. Dela falei-vos aqui. Apaixonámo-nos por ela assim que abrimos a porta e foi lá que começámos a construir a nossa família: adoptámos o Oreo, comprámos as nossas primeira mobílias e decorámos a casa com muito amor. Festejámos o Halloween e vestimo-nos de cores natalícias. Demos-lhe até um nome: A Casa do Gato, e convidámos os amigos para a inauguração. 

  

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Dela guardo as noites a fazer bolos, o calor dos radiadores que teimavam em não desligar e a vizinha do rés-do-chão que cuscava as horas a que chegávamos das nossas saídas noturnas. 

Foi lá que tomámos decisões importantes para a nossa vida, como a de regressar a Portugal, e foi lá também que aprendemos a ser nós os dois, um com o outro. Hoje, sei que, se mudar outra vez, para outro lado qualquer já não mudo sozinha, mas com a melhor pessoa que Londres - e todas estas casas - me trouxe. O Gui. 

 

31
Ago17

VIVER EM LONDRES | O que é o council tax? & outras histórias

Joana Santos

Sempre que termino de vos contar o que tenho planeado e o que penso ser importante sobre viver em Londres, lembro-me de mais uma imensidão de assuntos que não posso deixar por dizer. Hoje, falo-vos sobre o que é o council tax, quais são as scams mais comuns na hora de alugar casa e dou uma de mãe lembrando-vos de alguns papéis que têm de preencher entretanto. 

 

1. Council Tax

Antes de mais, deixem-me dizer-vos que, embora a maior parte dos senhorios deixe a cargo dos inquilinos o pagamento desta taxa ao council, há quem inclua o preço desde logo na renda total e não vos dê a tarefa árdua de se preocuparem com isto. Portanto, se estão no grupo das pessoas sortudas, não queiram de lá sair e ignorem esta parte da publicação (ou leiam, porque nnca se sabe quando vão mudar de casa). Ora, Londres divide-se em bairros e cada bairro tem, por assim dizer, a sua freguesia. Cada freguesia tem um council, que cá é mais conhecido por junta de freguesia. O council é, por exemplo, responsável por garanir que o lixo é recolhido, que os nascimentos são registados e que as famílias encontram escolas para as suas crianças. No entanto, é também a junta de freguesia que gere a ocupação das casas naquele espaço, que, no fundo, lhe pertence. Portanto, para além de pagarmos a renda ao senhorio pela ocupação da sua casa, pagamos uma taxa ao council pela ocupação do espaço de terra. O valor desta taxa é, obviamente, maior quanto mais valiosa for a casa. Portanto, na hora de assinar o contrato não só devem certificar-se do valor de council tax que devem pagar como também questionar o senhorio sobre se é da vossa responsabilidade fazê-lo. Mas não se assustem: não é assim tão complicado. No fundo, só têm de entrar em contacto com o council da vossa área de residência, explicar quantas pessoas residem no mesmo espaço e responder a algumas questões, como por exemplo se todos estão a trabalhar e se há crianças na casa. Porquê? Porque há famílias que, devido aos seus rendimentos, conseguem descontos e isenções no pagamento desta taxa. Os estudantes, por exemplo, também não pagam, mas só se apresentarem um comprovativo em como estão, de facto, a estudar no país. 

 

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2. Scams

Já ouvi muitas histórias de pessoas que perderam dinheiro na hora de alugar casa em Londres, por isso é que tratei sempre de tudo com uma agência imobiliária e apenas depois de ler opiniões sobre a mesma. Por isso:

- prefiram sempre agências imobiliárias;

- confiram o que se diz sobre elas;

- não se deixem enganar por descrições maravilhosas de casas;

- vejam se a pessoa escreve bem em inglês e não está a usar um tradutor;

- evitem entrar em contacto com pessoas que usam contas gratuitas de e-mail, como o Gmail ou o Hotmail;

- pesquisem pelo número de telefone fornecido no anúncio;

- não paguem por qualquer tipo de serviço antes de garantirem que tudo é verdadeiro e legal (por exemplo, duvidem sempre que vos pedem uma fee para reservar a casa);

- se algo vos parecer estranho, entrem em contacto com o gov.uk

 

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3. Papeladas

Quando finalmente fecharem o acordo e assinarem o contrato da vossa casa, podem (e devem) efectuar o vosso registo no médico de família (GP - General Practitioner). Qualquer pessoa tem direito a este serviço, embora o estudantes tenham de ter também um seguro de saúde pivado (feito em Portugal com extensão ao estrangeiro ou feito no Reino Unido). Para se inscreverem, basta perceber quais são as clínicas disponíveis perto da vossa casa e qual delas tem as melhores reviews. Depois, vão até lá preencher papéis e papelinhos (basicamente, o vosso histórico de saúde) e fazer análises e já está! Só entram em contacto convosco se houve algo de errado com as análises, mas a partir do momento em que se inscrevem podem passar a visitar o GP por qualquer motivo de saúde que vos preocupe. Lembrem-se: neste país, as idas ao hospital só são permitidas em casos de doença aguda ou acidentes. Se vos doer a garganta, por exemplo, fora da hora de atendimento do vosso médico de família, podem visitar uma walk-in clinic (uma espécie de Serviço de Atendimento Permanente). Para além disto a partir do momento em que tiverem uma morada fixa ficam aptos a votar (embora não em todas as eleições). Para se registarem, cliquem aqui. É também nesta altura que devem alterar a vossa morada no Cartão de Cidadão (muito importante!) e actualizarem a vossa inscrição consular. Podem visitar o portal online do Consulado Geral de Portugal em Londres aqui. Não se esqueçam de garantir também que contactam o HMRC para alterar a morada associada ao vosso National Insurance Number. 

 

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Esta rubrica têm-vos sido úteis? Que outros assuntos gostavem de ver aqui explicados?

29
Ago17

VIVER EM LONDRES | A Casa de Sonho

Joana Santos

{As fotografias desta publicação foram tiradas da janela da minha primeira, segunda e terceira casa em Londres, respecivamente.}

 

Contava-me um amigo, de férias em Portugal, que na semana passada se deparou com duas caras desanimadas e com vontade de desistir depois de consultarem um portal de aluguer de casas em Londres. Tudo por culpa do preço. É verdade: as casas são caras e muitas vezes gastamos metade do nosso salário numa renda. Mas o segredo está em perceber que, naquela cidade, nada é definitivo e que a paciência é a nossa melhor amiga. Se hoje não encontramos a nossa casa de sonho, amanhã ela aparece-nos à frente como que por magia. O importante é estarmos sempre atentos e nunca baixarmos os braços. 

 

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1. Os melhores portais de aluguer de casas 

Depois de escolhida a zona e o bairro, estamos prontos para a aventura que é consultar um portal online de alguer de casas. Comecem pelo Zoopla e afastem-se do Gumtree. O primeiro permite-vos definir uma série de preferências, como se pretendem metro perto de casa ou se vos dá mais jeito paragens de autocarro, perceber onde ficam as escolas, os hospitais e parques mais próximos bem como qual é a estimativa mensal dos gastos e ainda vos indica, baseado nas opiniões de quem lá mora, se a zona é segura. O último é perfeito para scams, que é como quem diz fraudes. Pelo meio, há o SpareRoom, perfeito para quem quer encontrar um quarto ou alugar uma casa em conjunto. Este portal tem também uma aplicação para o telemóvel e funciona quase como rede social: podemos entrar em contacto com os nossos futuros housemates, perceber quais são os seus gostos e qual é a dinâmica da casa. Registem-se em cada um dos portais, criem alertas diários para novas casas e consultem-nos todos os dias. Quando enviarem mensagens, apresentem-se brevemente e marquem visita. As casas em Londres desaparecem num abrir e fechar de olhos. 

 

2. A abordagem a ter com a agência imobiliária

A maior parte das casas que vão encontrar são para alugar através de agências imobiliárias. O que, se querem que vos diga, é a opção mais segura, embora exija mais custos. Muitas vezes alugar casa directamente ao senhorio faz com que nunca estejamos certos do que nos vai acontecer: muitos senhorios alugam as casas ilegalmente, o que se torna um problema quando precisamos de comprovativos de morada, cartas de referência ou até mesmo de provar que vivemos naquele país. Mas atenção: procurem sempre informações sobre as agências que contactam. É importante sabermos que não estamos a ser enganados. Para mim, as melhores são a Foxtons e a London Residential: fizeram um excelente trabalho sempre que precisei. Podem ir directamente às agências e explicar o que procuram. Desta forma, têm o trabalho facilitado. O segredo para uma boa relação com este serviço é ser claro: o valor que estão disponíveis a pagar é X, querem uma casa com Y e Z em determinado lugar e não estão dispostos a aceitar nada para além disso. Caso deixem tudo em aberto os agentes imobiliários vão mostrar-vos sempre casas que estão muito para além do vosso orçamento em zonas que não vos interessam e com condições que não vão ao encontro das vossas necessidades. (Se estiverem à procura de casas na zona de Ealing Broadway, vão à Foxtons 54 The Mall e peçam para falar com Angat Kamboh! Melhor agente imobiliário de todo o sempre!)

 

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3. PM, PW & PCM - Quê?

Provavelmente, vão começar a deparar-se com uma série de termos que não vos vão dizer nada. Nesse caso, o Google vai ser o vosso melhor amigo. Mas não desistam (nem assinem nenhum contrato) até entenderem tudo aquilo que vos aparece nas descrições de cada casa ou quarto. Deixo-vos alguns exemplos mais comuns:

- PM: renda por mês (se pagam a 21 de Março, voltam a pagar a 21 de Abril);

- PCM: renda por mês do calendário (pagam em Março e voltam a pagar em Abril, ou seja pagam meses inteiros);

- PW: renda por semana (todas as semanas pagam o mesmo valor, independentemente de existerem 4 ou 5 semanas em determinado mês);

- Double Bedroom: quarto de casal;

- Studio: estúdio, ou seja, o quarto, a sala, a cozinha e a casa de banho são no mesmo espaço;

- Live-in landlord: o vosso senhorio vive na mesma casa;

- Shared-living: maioritariamente casas de estudantes e pessoas mais jovens, onde cada pessoa tem o seu quarto com casa de banho e depois partilha a sala e a cozinha com o prédio inteiro.

 

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4. A visita

Quando encontrarem a casa ideal e, finalmente, marcarem a visita, preparem-se. Escrevam num papel todas as perguntas que querem fazer a quem lá vive ou ao agente imobiliário: sem vergonhas e sem medos. Percebam quais as taxas a pagar à agência, se há custos envolvidos com o council tax, quem é responsável por activar a luz e a água e quais os motivos que levaram os anteriores moradores a saírem daquela casa. Depois, deixem-se guiar pela energia da casa: quando entram, sentem-se bem?, começam logo a imaginar o quão boa vai ser a vossa vida ali?, os vossos interesses batem certo com os das pessoas que já lá vivem?. Mas, claro, não se esqueçam de olhar com atenção para a envolvente da casa: há buracos nas paredes ou no soalho?, as janelas vedam bem?, há marcas de humidade?, a casa está arrumada?. Se já se sentirem em casa, então perguntem como podem dar início ao processo de aluguer. Quanto mais rápido melhor, para que ninguém vos fique com a casa.

 

PS1: Acabei por ir pesquisar quartos para alugar em Londres, enquanto escrevia esta publicação, e dei de caras com umas casas lindas na rua onde morei mais tempo. Deu-me a saudade e fiquei nostálgica. Em breve, falo-vos sobre as minhas casas nesta cidade e as histórias bonitas em cada uma delas.

 

PS2: Levem cerveja ao Angat. Ele gosta de Sagres e Super Bock. 

22
Ago17

VIVER EM LONDRES | Casa partilhada ou viver sozinho?

Joana Santos

Facto: Londres é gigante.

Como se não bastasse o enorme tamanho desta cidade, os número não mentem: cabem lá todos os habitantes de Portugal. Traduzindo, há casas (maioritariamente de dois ou três andares) a perder de vista e encontrar um espaço que nos acolha pode ser (e é, na maior parte das vezes) uma dor de cabeça.

Então, por onde começamos?

IMPORTANTE: viver em Londres sai caro. 

 

1. Decidir se queremos morar sozinhos ou acompanhados

Por esta altura, em que já sabemos qual vai ser o nosso salário, pois já arranjámos trabalho, podemos estimar quanto dinheiro temos disponível para a renda de uma casa ou de um quarto. Se o nosso objectivo for poupar dinheiro ou conhecer pessoas diferentes daquelas que habitam a nossa realidade, o melhor é alugar um quarto. Se temos mais dinheiro disponível e não queremos abdicar da nossa privacidade, então uma casa será a melhor opção. A maior parte das pessoas que fui conhecendo ao longo da minha estadia em Londres optou or partilhar casa (eu entro para a contagem!), embora tenha conhecido outras que, por viverem com os namorados, conseguiram alugar uma casa com apenas um quarto. A verdade é que alugar um quarto, nesta cidade, pode custar-nos quantias monstruosas.1200 libras por mês, para ser mais concreta. Mas também é possível conseguir uma casa pelo mesmo valor. Tudo depende das zonas que escolhemos, da quantidade de pessoas que a casa alberga e, obviamente, da qualidade da casa.

 

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2. Norte, sul, este ou oeste?

 

A simples tarefa de atravessar Londres pode levar-nos aos quatro cantos do mundo. Por isso, escolher entre um dos quatro pontos cardeais pode ser uma tarefa difícil. Para facilitar há que olhar para a linha de metro, ou de qualquer outro transporte público ue utilizemos, e perceber qual dos pontos nos leva mais rápido ao nosso destino diário: o local de trabalho. É muito fácil levarmos mais de uma hora para chegarmos ao nosso destino final, por isso há que facilitar naquilo que pudermos. Mas atenção: nem todas as zonas se enquadram nos nossos estilos de vida. Se queremos estar perto da comunidade portuguesa, então devemos focar as nossas atenções no sul da cidade. Para aqueles que não vivem sem saídas à noite, idas ao teatro e lojas de produtos em segunda-mão, então o este é definitivamente a vossa casa. Os que estão mais habituados a viver em cidades-dormitório vão encontrar conforto na parte norte de Londres. Já os que não dispensam uma boa dose de glamour, passeios ao sábado por lojas de roupa caras e brunches de domingo em boulangeries simpáticas devem optar pelo oeste. Este é também o lugar ideal para quem gosta de correr junto ao rio ou fazer caminhadas em parques gigantescos.

 

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3. Que bairro escolher?

Okay, Londres divide-se por bairros. Tal como um concelho em Portugal se divide por freguesias. Há bairros melhores, geralmente mais caros, há bairros onde ninguém nos recomendará viver, com casas que se alugam ao preço da chuva, e depois há bairros que só depois de lá morarmos é que percebemos o quão bons eles são. Depois de escolherem o ponto cardeal que mais vos diz, aventurem-se pelos diferentes bairros e deixem-se levar pela magia de uma cidade em constante movimento. No sul, os bairros mais cool, na minha opinião, são Richmond e Kingston, embora sejam também mais familiares. Croydon seria uma zona que evitaria. Lambeth um intermédio para quem não dispensa uma bica e um pastel de nata pela manhã. No este, Hackney roubou-me o coração. Há lá coisa melhor do que os baguels de Shoreditch? Do que os cafés trendy de Dalston? Do que uma garrafa de vinho à beira do Regent's Canal? Já Barking e Dagenham são zonas a evitar. Para as famílias, Waltham Forest (Walthamstow, Enfield e Leytonstone) pode ser uma zona agradável, embora de má fama. Este foi o bairro que me acolheu assim que cheguei. A norte, Finsbury Park, no bairro de Islington, há-de ser sempre o meu local preferido: um chocolate quente no Park Theatre, um jantar num dos infinitos restaurantes de Stroud Green Road ou as compras de sábado por Holloway Road. Seven Sisters, em Haringey, há-de ser sempre um lugar a evitar, que me recorda uma caminhada sem fim em busca de uma casa que não existia. Já Camden é uma opção agradável para quem não dispensa a boa vida. Por fim, o oeste: o último local onde vivi. E digo-vos, sem hesitar, Hammersmith & Fulham ou Ealing são os melhores bairros de sempre. Ealing é indicado para quem quer assentar: viver sozinho ou em casal, fazer compras no Morrissons ao fim de semana e provar as melhores pizzas de todo o mundo (isto é um teasing para outra publicação, okay?). Harrow e Hounslow não me convenceram. 

 

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Depois de tomada a decisão, é meter mãos à obra. Na próxima publicação, partilho convosco as minhas dicas sobre os melhores websites para encontrar a casa perfeita e ajudo-vos a entender as descrições de cada anúncio, para que, na hora de assinar o contracto, nada vos escape.

 

Até lá, relembrem outras informações importantes:

O que fazer antes de partir | O que fazer quando chegar | Como encontrar trabalho | 

29
Jun17

VIVER EM LONDRES | Como encontrar trabalho?

Joana Santos
 
A um dia do aniversário da minha mudança para o Reino Unido, a rubrica mais adorada deste blogue volta com os seus conselhos e sugestões para aqueles que se aventuraram e partiram à descoberta. Desta vez, fala-se de como encontrar trabalho em Londres (dicas que, na verdade, podem servir para quem vive noutras cidades). Mas lembrem-se: isto é a minha experiência, o vosso caminho é só vosso. 
 
Se já possuem conta no banco, documentos de identificação em dia e National Insurance Number (ainda que provisório), estão aptos para assinar um contrato de trabalho. Mas por onde começamos?
 
1. Rever o Currículo 
Antes de enviarem o vosso CV para alguma empresa ou de criarem conta em motores de busca de empregos, vejam se as informações continuam actualizadas. Já passou, provavelmente, algum tempo desde o dia em que chegaram e talvez já tenham alterado a vossa morada, o vosso número de telefone ou talvez até já se sintam mais confortáveis com a língua e reparem em algum erro que vos tinha passado despercebido até hoje. Tenham também atenção a palavras com acentos, cedilhas ou outras formas de acentuação próprias do português. Muitas vezes, em motores de recrutamento automáticos, o vosso currículo poderá não ser visualizado correctamente porque o vosso nome, outrora "João", passou a "Jo#!%o". Está tudo correcto? Então, está na altura de mostrarem o que valem ao mundo. 
 
2. Criar conta em sites de busca de emprego
Regra geral, as plataformas de divulgação de ofertas de trabalho no Reino Unido funcionam melhor do que aquelas a que estamos habituados em Portugal. O processo é mais intuitivo e rápido, pois, na maior parte dos sítios, é só clicar e o nosso CV é logo enviado para os recrutadores. Não há necessidade de preencher centenas de campos informativos, responder a questões demasiado específicas (à excepção dos motivos pelos quais queremos trabalhar em determinada empresa) ou fazer testes de aptidões. Para além disso, há aplicações para o telemóvel, tornando possível enviar o nosso CV a partir de qualquer lado. Claro que, de ramo para ramo, tudo o que estou a escrever aqui pode alterar-se, mas de uma maneira genérica é assim que funciona. Procurem websites específicos para as vossas áreas e tirem sempre umas horas por dia para pesquisar ofertas nestes locais. Para mim, as plataformas de eleição são CV Library, Monster, Indeed e TotalJobs. Para aqueles que procuram ofertas na área de hotelaria e restauração, o Caterer é a vossa melhor aposta. 
 
 
 
3. Criar conta no Linkedin
Em Londres, e, no geral, em todo o Reino Unido, o Linkedin é a plataforma de eleição para headhunters (recrutadores) entrarem em contacto com profissionais. Se tiverem um bom perfil, experiência profissional consistente e relevante, o mais provável é que, semanalmente, recebam contactos com ofertas de trabalho. Formem uma boa rede de contactos, peçam para que os vossos colegas vos recomendem e, sobretudo, mostrem o quanto valem, através de partilhas de assuntos que estejam ligados à área em que pretendem trabalhar.
 
4. Tomar atenção aos websites de empresas dentro da área que procuram
Pode acontecer que determinadas empresas tenham uma plataforma de ofertas de emprego dentro do próprio website sem as publicarem nas plataformas anteriormente referidas. Por isso, o melhor que têm a fazer é criarem uma lista com todas as empresas que vos possam interessar de que se lembram e visitar as páginas online das mesmas. Se encontrarem ofertas interessantes, não deixem de visitar o Linkedin dos responsáveis pelos recursos humanos da empresa e, com uma boa dose de coragem, enviem-lhes o vosso currículo directamente. 
 
5. Apostar nas candidaturas espontâneas
Porque o importante é nunca baixar os braços e ter bastante persistência, muitas vezes vale a pena sair de casa, com um monte de currículos debaixo do braço e entrar dentro de um Centro Comercial ou nas mil e uma lojas espalhadas pela cidade e pedir para deixar o CV. Mesmo que não estejam a precisar de ninguém, vocês mostram-se à marca e, se gostarem da vossa atitude, podem chamar-vos. O mesmo vale para candidaturas espontâneas enviadas por e-mail. Gostam de uma marca e adoravam trabalhar nas suas lojas ou escritórios? Não tenham vergonha. Arrisquem. 
 
 
 
Tenho uma entrevista, e agora? 
 
A confirmação de que, finalmente, conseguimos uma entrevista de emprego pode deixar-nos em completo terror. Mesmo quando estamos confiantes dos nossos conhecimentos de inglês, mesmo que já tenhamos passado por outras mil entrevistas de emprego em Portugal. Afinal de contas, é a nossa primeira entrevista num país estrangeiro. O mais importante é, sem dúvida, manter a calma. E, claro, fazer bem o trabalho de casa. Existe um website chamado Glassdoor, onde, para além de poderem consultar ofertas de emprego, podem ainda ler avaliações por parte dos trabalhadores da empresa para onde foram chamados acerca das condições de trabalho do local. Na maior parte das vezes, esses mesmos trabalhadores contam como são as entrevistas e quais as perguntas mais frequentes. Fala-se também de salários, férias, relações entre os colegas e muitos outros temas que vos podem dar uma ideia do que esperar. Para além disso, estudem bem o conceito da marca e estejam preparados para perguntas sobre a mesma. Depois, construam bem a vossa história: quem são, de onde vêm, o que procuram com a vossa mudança para o Reino Unido e porque escolheram enviar a vossa candidatura para determinada empresa. No dia da entrevista, sejam vocês próprios. Em Londres, pelo menos, apoia-se a diferença, a originalidade e as particularidades de cada um. E, por isso, é que tanta gente escolhe esta cidade para ser livre. 
 
A minha experiência
 
Cheguei a Londres a 30 de Junho de 2015. Comecei a procurar trabalho uma semana depois de chegar. No dia seguinte a ter iniciado a procura tive uma entrevista. Uma semana depois, outra entrevista. Duas semanas depois, outra entevista. E dia 27 de Julho de 2015 comecei a trabalhar, num local onde fiquei durante 8 meses. Enviei candidaturas espontâneas, respondi a anúncios, falei com amigos que podiam ser bons contactos, colei os meus olhos às montras as lojas para descobrir ofertas de emprego. Fiz de tudo um pouco. Pelo meio, recusei muitas ofertas, que se revelaram ser diferentes daquilo que eu esperava, marquei entrevistas que acabei por desmarcar e tive experiências mirabolantes. Acima de tudo, fui sempre fiel a mim própria. E segui o meu instinto. Sabia que aquilo que pretendia inicialmente era melhorar o meu inglês, perder a vergonha na hora de falar aquela que viria a seguir a minha segunda língua e criar uma rede de contactos na minha nova cidade. Então, procurei maioritariamente empregos ligados ao atendimento e apoio ao cliente. Lojas, supermercados, cafés, call centres, corri tudo. Pus de lado qualquer oferta em que precisassem de pessoas que falassem português, porque sabia que aí não ia praticar tanto quanto noutro lugar onde só se falasse inglês. Respondi ainda a ofertas para empregos em limpezas e serviços de babysitting. A minha primeira entrevista foi para uma loja de souvenirs, na zona de London Bridge. Ofereceram-me o trabalho. Eu não aceitei porque não gostei da energia da loja. A minha segunda entrevista foi para cuidar de um bebé, super querido, numa casa na zona de Canada Water. A mãe adorou-me, o pai discutiu com a mãe em plena entrevista. O miúdo ficou com cara de quem assistia a discussões todos os dias. Eu tive medo da responsabilidade de educar uma criança. Disse que não estava interessada no trabalho. A minha terceira entrevista foi para uma loja que vendia materiais de construção. A posição disponível era para operadora de caixa. O trabalho era longe de tudo: dos transportes, da casa onde eu estava a viver, do centro da cidade. Para além disso, consistia em turnos rotativos: um deles começava às 6:15 da manhã e o outro terminava às 20:15. Eu adorei tudo: a loja, o gerente da loja, a rapariga dos recursos humanos, a energia do espaço, os outros trabalhadores. Mesmo que este trabalho me obrigasse a mudar de casa, acordar às 4 horas da manhã e andar a pé numa zona que não é propriamente a zona mais segura de Londres. Aceitei. E, durante oito meses, raramente me apeteceu mudar de trabalho (só naqueles dias em que o cansaço me fazia adormecer e chegar atrasada). Durante oito meses, aprendi como se reveste uma casa da humidade, como se evita que as janelas deixem entrar o frio e ainda que existem pelo menos uns cinco tipos de rodapés diferentes. Durante oito meses, aprendi a falar um bocadinho de polaco e, aos poucos, fui ganhando confiança com o meu inglês. Cresci muito. E agradeço, ainda hoje, a quem, no dia da minha entrevista, depositou a confiança em mim e soube deixar-me à vontade. E, mais do que isso, agradeço à minha intuição que me levou sempre a fazer as escolhas mais acertadas. 
 
Tenham o vosso objectivo bem definido. Arrisquem. Sem medos. E, sobretudo, confiem. Mesmo quando tudo vos parecer virado do avesso. 
 
Com amor,
Joana
 
 
17
Abr17

VIVER EM LONDRES | O que fazer quando chegar

Joana Santos
 
Despediste-te da tua família e dos teus amigos, provavelmente sem saberes quando os voltarias a abraçar. Apanhaste um avião com destino ao incerto. Aterraste em Londres. E agora? Agora é só começar. Se não sabes por onde, continua a ler a publicação de hoje. 
 
1. Descansar e conhecer os cantos à casa
É certo que quando chegamos vimos cheios de vontade de começar, mas a verdade é que, depois de uma mudança tão abrupta, pôr logo mãos à obra nem sempre é a escolha mais acertada. A verdade é que há formas mais equilibradas de "pôr a mão na massa". Por exemplo, conhecer os cantos à casa, que é como quem diz descobrir Londres. Eu cheguei a 30 de Junho e decidi que, até ao dia 6 de Julho, segunda-feira, ia ter bastante calma e aproveitar para "turistar". Lembro-me que durante esses dias fui até ao centro de Londres muitas vezes, fiz o roteiro turístico normal, apanhei o metro vezes e vezes sem conta em várias direcções, ambientei-me aos autocarros diurnos e nocturnos, aproveitei para ler sobre os melhores sítios para morar e fui estudando o mercado de trabalho: devagar. Nestes primeiros dias, devo ter enviado cerca de uma dezena de currículos, pois queria mesmo dar tempo ao tempo e inserir-me devagar no mundo londrino, que, diga-se de passagem, é muito stressante. 
 
 
 
2. Arranjar um número de telemóvel inglês
Esta deve ser a vossa primeira preocupação. Porquê? Vão precisar de um número de telemóvel para quase todos os passos que se seguem: para receberemc otnactos de entrevistas de emprego, para abrirem uma conta no banco, para contactarem o mundo, no fundo. Existem várias redes móveis, que se adequam mais ou menos consoante as vossas necessidades. A EE, a giffgaff e a Three são talvez aquelas mais indicadas para os jovens. Oferecem muitos GB de internet, mensagens grátis e minutos de chamadas gratuitas também. A EE foi a primeira rede que tive, exactamente porque me dava a possibilidade de aceder à internet gratuitamente e também de trocar mensagens sem pagar nada. Mais tarde, mudei para a Three Mobile e fiz um contrato de 12 meses com eles, que me deu acesso a internet e mensagens ilimitadas, chamadas grátis até 125 minutos e ainda à função Stay At Home, que vos permite utilizar o vosso telemóvel em vários países, incluíndo Portugal, como se estivessem no Reino Unido. Isto quer dizer que, quando viajo, raramente pago roaming. Depois existem outras ofertas, como a LycaMobile e a Lebara, que são redes móveis que vos dão a possibilidade de efectuar chamadas para outros países a preços reduzidos. Nunca utilizei estas redes porque sempre me pareceram ter demasiada publicidade duvidosa para imigrantes, que nem sempre se traduz em verdades. 
 
3. Marcar uma entrevista no JobCentre para pedir o National Insurance Number
What? Falemos em português. Ora, para trabalhar legalmente no Reino Unido é preciso existir um registo nosso. Esse primeiro registo é feito no JobCentre (Centro de Emprego) da vossa área de residência, através de um pedido de National Insurance Number (uma mistura entre um Número de Segurança Social e um Número de Identificação Fiscal). Se vêm para o Reino Unido para trabalhar, esta deve ser a primeira burocracia a tratar. (Se vêm para estudar, o caso é diferente e tratam de tudo junto da vossa Universidade.) Para fazer este pedido, é necessário, primeiro, marcar uma entrevista do JobCentre. Podem consultar os números de telefone para marcação de entrevista aqui. Geralmente, entre a data do pedido de entrevista e a data em que vão, efectivamente à entrevista, passam cerca de três semanas, portanto convém que marquem assim que chegam, para que, quando começarem a trabalhar, já tenham o National Insurance Number em vossa posse. Para a entrevista devem levar o vosso Cartão de Cidadão ou Passaporte e um comprovativo de morada. Se estiverem a viver numa habitação provisória, podem levar uma carta dessa pessoa (de preferência um cidadão britânico ou um portador de National Insurance Number) dizendo que vivem na casa dela e que ela se responsabiliza pela vossa estadia até encontrarem uma habitação própria. Sim, vão fazer-vos várias perguntas, mas o importante é que esteham calmos e confiantes. Ao telefone, perguntam-vos quando chegaram, onde estão a viver e porque é que vieram para o Reino Unido. Na entrevista presencial, voltam a questionar-vos sobre as vossas intenções no país (só têm de dizer que vieram para trabalhar), de onde vieram, com quem vieram, onde vivem, com quem vivem e quando estimam começar a exercer uma actividade profissional (respondam sempre em menos de 90 dias). Eu tive tanta sorte! O senhor que me entrevistou era bastante simpático, viajava frequentemente para Portugal e conhecia imensa gente no país. Tornou-se muito mais fácil e eu fiquei menos nervosa com o questionário. 
 
ATENÇÃO: No Reino Unido, os nomes dividem-se em First Name, Middle Name e Last Name. O nosso nome, para os britânicos, fica dividido da seguinte forma: 
First Name -  Primeiro Nome Próprio;
Middle Name - Segundo Nome Próprio e Primeiro Apelido;
Last Name - Último Apelido.
Se o vosso nome ficar dividido desta forma na entrevista para obterem o National Insurance Number, mais tarde, em pedidos de crédito, registos para votar, registos de residência ou pedido de carta de condução britância, o vosso nome real (Nomes Próprios e Apelidos) não será o mesmo que irá aparecer nestes outros documentos, o que invalida os mesmos. Portanto, expliquem, na vossa entrevista e sempre que tiverem de dar o vosso nome a uma entidade oficial, que em Portugal, os nossos nomes se dividem em Nomes Próprios (First Name) e Apelidos (Last Name) sempre. Ou seja, se o vosso nome for Maria Antónia Vaz Freitas (um nome que surgiu out of nowhere, portanto Marias Antónias Vaz Freitas, desculpem desde já!) deverão explicar que os vossos First Name são Maria Antónia e que os vossos Last Name são Vaz Freitas, não existindo qualquer Middle Name. Resumidamente, não existem Middle Name em Portugal. Estamos entendidos?
 
 
 
4. Começar a enviar Currículos
A partir do quinto dia da vossa nova vida em Londres e depois de marcada a entrevista para pedido de National Insurance Number, estão oficialmente preparados para começar a enviar currículos. Aqui dei-vos algumas dicas de como prepararem currículos, consoante o tipo de trabalhar que pretendem procurar. Na próxima publicação vou falar-vos detalhadamente acerca da procura de trabalho no Reino Unido e também contar-vos a minha experiência em termos de emprego em Londres. Hoje, retenham apenas que o mais importante é não desistir. Se vieram para Londres à procura de um trabalho como designer gráfico, por exemplo, dediquem-se à procura desse mesmo trabalho, mas, se o dinheiro estiver contado, não se fiquem por aí. Enviem currículos para outro tipo de trabalho, como em lojas ou restaurantes. Embora não seja o vosso sonho, a realidade é que Londres é uma cidade cara e vocês vão precisar de dinheiro ao final do mês, para alugar a vossa própria casa ou quarto. Mas também é verdade que em Londres a mudança é uma palavra constante na vossa vida e, se hoje são customer service advisors, não quer dizer que amanhã não serão graphic designers. Aqui apenas não vale parar. É mais importante para um recrutador ver que vocês não desistiram nem baixaram os braços do que perceber que estiveram apenas à espera do vosso trabalho de sonho. 
 
5. Inscrever no Consulado Geral de Portugal em Londres
Okay, isto veio com a experiência e não foi algo que fiz assim que cheguei. Mas é por isso que aqui estou: a ajudar-vos para que não comentam os mesmos erros que eu cometi. é importante haver um registo de todos os portugueses que vivem fora de Portugal, para que possa ser prestado um melhor auxílio aos mesmos em caso de necessidade. E esse auxílio só é prestado se as entidades portuguesas responsáveis souberem que vocês vivem em determinada parte. Portanto, tratem de tudo, mesmo que hoje vos pareça pouco relevante para que, quando um dia precisarem, possam pedir ajuda rapidamente. A vossa inscrição pode ser feita pelo correio, sem que precisem de se deslocar ao posto consular. Vejam mais informações aqui
 
6. Abrir uma conta no banco
Esta vai ser provavelmente a maior aventura de todas. É preciso ter conta no banco para começar a trabalhar e conseguir arrendar uma casa. É preciso ter um comprovativo de morada para abrir conta em alguns bancos e, muitas vezes, é preciso trabalhar para que a abertura da vossa conta seja um processo rápido e sem grandes questões. Ora, tendo em conta a minha experiência, abrir uma conta no banco depende muito da pessoa que vos atender quando visitarem os balcões bancários. A minha primeira conta foi aberta sem qualquer problema e sem grandes questões, a segunda conta demorou várias semanas a ser aberta, porque de cada vez que visitava um balcão do banco ou estavam de agenda cheia ou eram extremamente desagradáveis comigo e eu desistia ao fim de cinco minutos de conversa. Existem várias opções: o Barclays, o Santader, o NatWest, o HSBC, o Lloyds Bank e mais uns quantos. Quando cheguei, visitei o Barcalys, porque conhecia o nome de Portugal. Atendeu-me uma senhora, visivelmente chateada por estar a trabalhar naquele dia, que me disse que sem casa alugada em meu nome não me abria a conta. Saí desanimada. Visitei o HSBC e o NatWest de seguida e obtive a mesma resposta. Uns dias mais tarde, ainda sem conta no banco, falei com uma amiga portuguesa que veio estudar para Londres e ela contou-me que tinha passado pelo mesmo e que a saga só terminou quando visitou o Lloyds Bank. Peguei no meu Passaporte e fui até aos balcões desse banco no Centro Comercial Westfield, em Stratford, os mesmos que a minha amiga tinha utilizado. Na maior paz, uma senhora super simpática atendeu-me, disse-me que não havia problema nenhum, que me podia abrir a conta apenas com o Passaporte e a carta de confirmação de que tinha pedido o National Insurance Number e marcou-me uma entrevista no Lloyds Bank de Bank (Bank é uma das muitas "freguesias" de Londres) para dali a dois dias. Na data marcada, fui a uma entrevista com uma outra senhora simpática, que, em uma hora, tornou realidade a minha vontade de abrir uma conta bancária neste país. Et voilá, na data em comecei a trabalhar tinha já comigo o meu cartão do Lloyds Bank. Até hoje, nunca me arrependi desta escolha. O Lloyds Bank é, sem dúvida, o melhor banco que podia ter escolhido. É simples resolver tudo e quase nunca preciso de ir aos balcões do banco, uma vez que existe uma aplicação para o telemóvel MEGA FIXE, que nos permite fazer (quase) tudo online, como abrir contas poupança, por exemplo.
 
 
 
Depois de cumpridos estes passos, podem respirar de alívio pois já ultrapassaram a fase das burocracias. A partir de agora, é só começar a trabalhar e encontrar uma casa à vossa medida. Nos próximos dias, falo-vos sobre isso e dou-vos mais dicas para que a vossa transição seja a melhor possível.
 
Com amor, 
Joana
 
PS.: Obrigada pelos vossos comentários e mensagens sempre tão encorajadores. Peço desculpa por não vos conseguir responder individualmente nem visitar os vossos blogues, mas até que esteja concluído o meu regresso a Portugal todos os meus segundos andam bastante contados. Mas quero que saibam que vos agradeço, do fundo do coração, por estarem desse lado! :)
12
Abr17

VIVER EM LONDRES | O que fazer antes de partir

Joana Santos
 
Não, não desapareci nem me esqueci de que tinha de vos contar todas as minhas aventuras londrinas. Na verdade, os últimos dias foram uma correria. Empacotámos a vida em caixas (47 no total, dá para acreditar?), passeámos pelos poucos locais que ainda estão por visitar e aproveitámos o verão que pareceu chegar mais cedo. De repente, é dia 12 de Abril e faltam apenas dez dias para outra grande aventura começar. A nossa vida em Portugal. Wow. 
 
Mas e vocês? Vocês que querem fazer o caminho inverso? Vocês que estão mais do que preparados para mudar, de malas e bagagens, para o Reino Unido? É sobre isso mesmo que vos falo hoje. O que precisam de fazer antes de mudar de ares e embarcar na vossa própria aventura? 
 
 
 
Preparem-se. Vão buscar o vosso caderno de apontamentos. Eu conto-vos tudo. 
 
{Por favor, lembrem-se de que tudo aquilo que vos escrevo é baseado na minha própria experiência. Poucos planos, muita acção no local: encontrei trabalho e casa quando já cá estava; nada foi feito à distância. Se sentem que devem fazer de outra forma, façam-no. O mais importante é aquilo que vos deixa mais confortáveis.}
 
1. Escolher a cidade
Se aquilo com quem sempre sonharam foi viver no Reino Unido, não tenham medo. Venham. Esqueçam o Brexit (e as reportagens assustadoras da TVI): há trabalho, há boa qualidade de vida, há paz, sossego e segurança. Claro que há pessoas que não sabem o significado de solidariedade, de amizade e de respeito, mas elas também existem em Portugal. Por isso, descansem os vossos pais e avós e expliquem-lhes que, quando regressarem, fá-lo-ão com um horizonte muito mais alargado. Ainda assim, o Reino Unido é muito grande. Por isso, o primeiro passo é pesquisar sobre os lugares que mais se adequam ao vosso estilo e nível de vida, ao tipo de trabalho que pretendem ter e aos vossos objectivos. Para mim, a primeira escolha foi sempre Londres. E, se voltasse, continuaria a ser Londres. Londres é o coração desta ilha. É uma cidade gigante, que nunca dorme. É uma cidade tão grande que cabem nela centenas de mundos (e todas as suas "freguesias" são tão diferentes entre si que, se se fartarem de um estilo de vida, podem sempre mudar de freguesia e descobrirem-se novamente). Aqui há sempre qualquer coisa para fazer, descobrir e conhecer. Mas atenção: Londres é a cidade mais cara. Um quarto, em boas condições, numa casa aceitável, pode custar £800 ou mais, e uma casa, na Zona 3, custa, em média, £1200 por mês. Claro que, se o teu objectivo for poupar dinheiro, poderás optar por partilhar quarto ou por viver em shared accommodation (irei falar disto nos próximas publicações), mas, mesmo assim, é bom ter em atenção os elevados custos de vida da cidade. Se quiseres optar por cidades mais baratas, sem perder, no entanto, a vida social, poderás experimentar Cardiff, Bristol ou Brighton, por exemplo. Se não quiseres ficar muito longe de Londres, Windsor ou Oxford são também boas opções: se escolheres morar nestas cidades, poderás, por exemplo, trabalhar em Londres. Quando fiz a minha pesquisa, antes de vir, as minhas opções incluíam também Liverpool e Manchester, mas a verdade é que ambas me pareciam muito escuras e sem grande vida. Além disso, serei sempre uma mulher do sul, portanto o norte do Reino Unido continua, para mim, fora de questão. 
 
2. Definir um budget
Quanto dinheiro precisas de trazer contigo? Esta era a minha maior questão, quando decidi viver em Londres. A verdade é que atirei um valor um bocadinho para o ar e decidi que esse valor teria de ser suficiente para um mês, sendo que, ao final de um mês, eu tinha de conseguir um trabalho. Para mim, era mais importante mentalizar-me de que tinha de arranjar um trabalho, do que fazer as contas todas direitinhas e contar com ficar mais do que um mês desempregada. No bolso, trouxe 5000€. Se deu? Deu. Se deu para viver à vontade? Não. Portanto, façam as contas tendo em conta os vossos objectivos e o estilo de vida que querem ter no início. Se quiserem encontrar um trabalho específico, não estando disponíveis para agarrar "qualquer coisa", dêem a vocês próprios um prazo maior e tragam mais dinheiro. Se estiverem dispostos a aceitar o primeiro trabalho que vos oferecerem, então não precisam de quantias muito grandes. Os meus 5000€ duraram dois meses. Com eles paguei dois passes mensais, um mês e meio de renda no AirBnb onde fiquei instalada, um mês de renda e a caução do quarto que aluguei a partir de Agosto, comida para dois meses (comprada em supermercados baratos, como o Tesco ou o Iceland), alguma roupa que precisei de comprar para as entrevistas de emprego e 100€ que deixei de parte para a minha vida social (pouco social, vá) da altura (isto incluiu duas aulas de yoga e um bilhete para conhecer a Rachel Brathen!). Vivi muitos dias na corda bamba e chorei muitas vezes a achar que nunca ia encontrar trabalho, mas a verdade é que o objectivo de encontrar trabalho em um mês resultou e comecei a trabalhar a 27 de Julho de 2015. Se era o meu trabalho de sonho? Não. Mas acreditem que aprendi muito a trabalhar neste país. 
 
 
 
3. Arranjar um lugar provisório para ficar
Se querem um conselho, não tentem arranjar casa à distância a menos que conheçam alguém que já esteja no país e que possa ir verificar a casa por vocês. Há demasiados esquemas ilícitos com habitações no Reino Unido, exactamente porque há uma grande procura. Por isso, o melhor é mesmo encontrar um apartamento ou quarto provisório para os primeiros tempos. Falem com amigos que vivam no país ou com pessoas que pensem poder conhecer alguém de confiança com contactos aqui para vos arranjar um lugar para um mês. Alternativamente, utilizem plataformas como Couchsurfing ou AirbBnb ou escolham um hostel barato que vos possa albergar. Aquilo que escolhi fazer foi entrar em contacto com a minha professora de yoga que viaja bastantes vezes para o Reino Unido e conhecem muita gente por estes lados. Por sua vez, ela falou com uma amiga que cá vive, que falou com outra amiga que tinha quartos para alugar por um mês e foi assim que acabei a conhecer a Ros, a pessoa mais querida que me podia ter recebido em Londres. A Ros alugava os quartos no AirBnb e, durante um mês, acabei por conhecer holandeses, alemães e italianos que foram passando pela sua casa. A casa era super confortável e a Ros tinha um especial interesse por ecologia e permacultura, por isso acabei a aprender imenso com ela. 
 
4. Estudar inglês
Se é preciso saber falar fluentemente inglês para viver no Reino Unido? Não. Conheço muitas pessoas que entendem e falam apenas e básico e não só trabalham como vivem à vontade no país, deslocando-se, indo às compras e frequentando outros espaços públicos. Muito do inglês que a maior parte de nós sabe falar foi aprendido aqui, porque, obviamente, cada lugar tem as suas formas de expressão. Eu própria não sabia mais do que o básico, mas em apenas um mês o meu inglês melhorou bastante. Mas, apesar disso, acredito que deve haver um esforço para aprender mais. Quando digo "estudar inglês" não estou a  dizer que devem ter aulas da língua ou algo do género, mas interessem-se por conhecer e saber mais. Antes de virem, leiam muito em inglês, vejam filmes britânicos, vejam as maiores diferenças entre o inglês americano (aquele que a maior parte de nós fala) e o inglês falado no Reino Unido, façam exercícios de gramática e vocabulário no Duolingo. Tudo isto vai deixar-vos mais à vontade em compreender e em não ter tanta vergonha de falar. Apesar de haver quem viva no país sem falar a língua, sou da opinião que, se queremos inserir-nos na sociedade e criar ligações com os mundos que cabem neste país, devemos, pelo menos, conseguir expressar-nos em inglês. O resto vem com o tempo.
 
 
5. Peçam o Cartão Europeu de Seguro de Doença 
Este cartão é gratuito e pode ser pedido nos balcões da Segurança Social ou online aqui, permitindo-vos ter acesso a cuidados de saúde em toda a União Europeia como se estivessem em Portugal (em alguns países, o serviço de saúde chega mesmo a ser gratuito). Este cartão é obrigatório para todos aqueles que vivem no Reino Unido como estudantes ou auto-suficientes. Eu sempre tive o Cartão Europeu de Seguro de Doença, até mesmo em anos em qe não viajei, porque é gratuito e nunca se sabe o que pode acontecer. Portanto, peçam-no!
 
6. Façam vários currículos e muitas cartas de apresentação
Vejam como está o mercado de trabalho para as áreas em que pretendem procurar ofertas e comecem a desenhar um currículo bonito e uma carta de apresentação. Lembrem-se de que o modelo de CV europeu não é visto com bons olhos por estes lados e apostem em algo criado por vocês, original e detalhado. Esqueçam os modelos utilizados em Portugal, em que o nosso currículo ou tem uma página ou vai para o lixo. Aqui a qualidade é o mais importante. Pesquisem modelos de currículos mais utilizados nas áreas em que pretendem procurar. Por exemplo, se querem trabalhar em atendimento ao cliente o modelo mais indicado é um deste género. O mais importante é que fale dos objectivos que já foram atingidos na vossa carreira profissional e que inclua uma lista de aptidões.
 
 
 
7. Leiam sobre as leis comunitárias e as leis do Reino Unido
Esta é a parte que só percebi que devia ter feito quando já cá estava. Existem leis que regulam os movimentos migratórios no Reino Unido e nos países pertencentes à União Europeia (da qual o Reino Unido ainda faz parte), às quais temos de obedecer para exercer os nossos direitos enquanto cidadãos europeus. Por exemplo, apenas podemos residir no Reino Unido por um período de três meses sem qualquer estatuto, período após o qual devemos provar que nos inserimos numa das seguintes categorias: worker/trabalhador por conta de outrém, self-employed/trabalhador por conta própria, student/estudante, self-sufficent/auto-suficiente ou job seeker/à procura de emprego (temos de estar obrigatoriamente inscritos no Centro de Emprego ou JobCentre, como é conhecido aqui). Um dos melhores websites que devem consultar é o website do governo britânico, em www.gov.uk, e também o website do Consulado Geral de Portugal em Londres, aqui. Na página online do governo britânico encontram ainda muitas outras informações úteis que vos podem dar uma ideia de como será a vossa vida aqui. Sabiam que são multados se deitarem lixo (incluíndo beatas) para o chão? E que vos é pedida identificação sempre que tentarem comprar álcool e tabaco (mesmo que tenham 30 anos, mas aparência de 20)? Todos estes pequenos detalhes que parecem não ter importânica nenhuma podem revelar-se bastante úteis quando cá estiverem. 
 
8. Compreendam a história do Reino Unido
Parece pouco relevante, certo? Mas não é. A ilha é gigante e, quando se fala em Reino Unido, fala-se, na verdade, de um conjunto de países que constituem uma união política. É por isso que dizer que se vive em Inglaterra quando na realidade a nossa casa fica em Cardiff é a maior blasfémia que alguém pode proferir à frente de um gaulês. O Reino Unido engloba a Inglaterra, a Escócia, o País de Gales e a Irlanda do Norte. A Inglaterra, a Escócia e o País de Gales ficam na ilha da Grã-Bretanha e a Irlanda do Norte faz fronteira com a República da Irlanda, que é outro país, independente do Reino Unido. Situados? Abaixo da ilha, há ainda outras pequenas ilhas, chamadas ilhas do canal (entre a Grã-Bretanha e a França). Por exemplo, em Jersey, uma delas, a população portuguesa imigrante é maioritariamente de origem madeirense. Sabiam disto? Há muitos outro tópicos sobre a história que é bom saberem antes de se mudarem para que não cometam erros e acabem a ofender os britânicos!
 
Depois de todos estes passos dados e quando se sentirem confortáveis, comprem o bilhete de avião e façam as malas. Se são pessoas que, como eu, tendem a procrastinar comprem o bilhete de avião primeiro (depois de escolherem a cidade onde querem morar) e depois comecem a tratar dos passos seguintes. De qualquer forma, confiem. Confiem que tudo vai correr da melhor maneira. Definam o vosso plano de acção e vão adaptando consoante o que for acontecendo. Sinceramente, flexibilidade é talvez a palavra mais importante quando se dá um passo tão gigante como este. Nem sempre tudo vai correr como queremos; por vezes vamos mesmo querer desisitir de tudo isto. Mas sendo flexíveis e seguindo o nosso coração chegaremos sempre aonde quisermos. 
 
Com amor, 
Joana
 
 
PS.: Obrigada a todos aqueles que enviaram e-mails e comentários com perguntas e temas que gostavam de ver abordados nesta rubrica, Viver em Londres. Todas as vossas ideias vão ser incluídas nas próximas publicações.
 
 
04
Abr17

A JOANA DIZ COISAS | Casa.

Joana Santos

Cheguei a Londres a 30 de Junho de 2015. Vim livre de razões para ficar. Vim também semrazões para voltar atrás. Acredito que quando saímos do país que nos viu nascere crescer vamos atrás do nosso espírito aventureiro: por muito que queiramosacreditar, nunca mudamos de país com o coração cheio de certezas. A incertezaé, aliás, aquilo que caracteriza a mudança. Mas atiramo-nos de cabeça. Euatirei-me de cabeça, de corpo inteiro. Escolhi abraçar a vida num novo país:descobri-lo, aceitá-lo, vivê-lo. Mas longe de acreditar que um dia viria asentir-me em casa aqui. (Demorei muito tempo a compreender esse conceito: casa.Demorei exactamente oito meses de Londres e uma noite de Lisboa.) Mas a verdadeé que um dia, às 5:30 da manhã, ao atravessar um parque no este da cidade, acaminho do trabalho, olhei pela janela do autocarro e, vendo todas as luzescintilantes lá ao fundo, acreditei nunca mais querer ir embora. Olhando paratrás, se não fosse essa noite em Lisboa, tantos meses mais tarde, talvez osentimento de pertença a este lugar tivesse ficado. Não porque fosse real, masporque demoraria mais uma vida a entender o sentido da minha mudança. Hoje, seique não sou eu que pertenço aqui, mas é cada coisa bonita que Londres me deuque pertence à minha história. E essa história londrina continuará em mim,mesmo que eu não continue por cá. Se alguma certeza havia, no meio de tantasreticências que mudar de país me fez colocar, era a de que, custasse o quecustasse, iria ver respondidas muitas questões sobre mim. E, hoje, aqui sentadaa escrever, sei que não podia ter encontrado melhor forma de as ver respondidase sei que chegou o momento de tomar consciência dessas mesmas respostas. Não,não tenho resposta para tudo. Sei que há respostas que vou encontrar noutro lugarou que, já existindo dentro de mim, haverei de entender através de outrasaventuras, mas, por agora, tenho o suficiente para prosseguir. E estou feliz.
 
{A publicação era sobre outro assunto. Mas a verdade é que foi isto que saiu. É o que acontece quando deixo o meu coração falar.} 
 
 
02
Abr17

VIVER EM LONDRES | Porquê Londres?

Joana Santos
 
O mês começou com duas novidades aqui no blogue (e deixem-me agradecer pelas lindas mensagens de parabéns e sorte que recebi de todos vocês!). Mas, e como juntamente com duas novidades vêm sempre mais umas quantas, a publicação de hoje inicia, assim, um conjunto de outras publicações que já queria fazer há muito tempo mas só agora fazem sentido. Se já sabem que novidades são estas de que vos falei ontem, podem continuar a ler texto. Se não sabem, carreguem aqui
 
Prontos? Ora, visto que vou deixar a minha cidade londrina e aventurar-me novamente pelas ruas cheias de sol daquela que sempre foi a minha casa - Lisboa - decidi tornar estes vinte e um dias que antecedem a minha mudança para vos contar tudo sobre Londres: como é viver aqui, porque escolhi Londres, o que aprendi com esta cidade, o que vos aconselho a fazer se quiserem viver em Terras de Sua Majestade... Portanto, um verdadeiro manual de vida londrina. Parece-vos bem? 
 
Ao longo destes vinte e um dias (e sempre que vocês precisarem) podem enviar-me e-mails, comentários, mensagens com questões sobre a vida em Londres que gostassem de ver respondidas e, claro, se tiverem sugestões sobre publicações, por favor, contem-me tudo. 
 
Vamos a isso então? Está aberto, oficialmente, o mês mais londrino de sempre aqui no blogue! 
 
E, para começar, obviamente, começa-se pelo princípio: nada mais nada menos do que a razão pela qual decidi vir, a minha partida e como foram os primeiros tempos aqui.
 
Os meus últimos tempos em Portugal não foram fáceis. Não só porque o tempo parecia muito: estava em casa, sem trabalhar, à espera de uma viagem de avião que parecia nunca mais chegar; como, por outro lado, o tempo parecia pouco: para me despedir de toda a gente, para estar com aqueles que mais falta me fazem agora.
E depois vim. Fiz a tal viagem de avião com as lágrimas nos olhos o tempo todo: porque tinha medo de crescer, de estar sozinha e porque nunca pensei ser mesmo capaz; mas também com um sorriso gigante: estava a sair totalmente da minha zona de conforto e a ser capaz de fazer aquilo que nem eu acreditava ser capaz de fazer.
 
 
Hoje, olhando para trás, aquelas horas entre abraçar a minha família pela última vez em muitos meses e o momento que cheguei àquela que seria a minha casa por tempo indeterminado, foram as horas mais estranhas da minha vida: era um sentimento agridoce, estranho, bom e mau ao mesmo tempo. A dúvida misturava-se com a certeza e tanto tinha vontade de desistir como de nunca mais olhar para trás.
As primeiras duas, talvez três, semanas foram como um sonho (nem sempre necessariamente bom, mas eu não sentia que estivesse a viver realmente nenhum daqueles dias). Dividi o tempo entre entrevistas de emprego (uma para nanny, outra para uma loja de souvenirs e aquela que acabou por se tornar numa oferta que aceitei, numa loja de materiais de construção, para a posição de assistente de loja), candidaturas para outras trinta mil funções diferentes e passeios pelos pontos mais conhecidos desta cidade e outros tantos passeios por sítios não tão conhecidos assim. Dividi o meu tempo entre novas pessoas e pessoas antigas: chamadas de skype, visitas de e a amigos, conversas com desconhecidos em pubs. Dividi o meu tempo entre chás, livros e saudades.
Nesta altura, eu vivia na casa de uma senhora super querida, britânica, chamada Ros. Quase não falávamos porque eu morria de vergonha do meu nível de inglês, que, diga-se de passagem, não era assim tão mau. No entanto, ela tentava bastante conversar comigo e ajudar-me a sentir-me mais confortável. Um dia, ela desafiou-me a cozinhar um prato português e ofereceu-se para complementar o jantar com uma sobremesa inglesa. 
Fiz Bacalhau à Brás. Ela cozinhou crumble de maçãs que colheu do seu próprio pomar. 
Durante o jantar, a inevitável pergunta foi feita: "Porque é que vieste para cá?". Durante mais tempo do que aquele que me pareceu aceitável, tentei pensar numa resposta. Construí-la. Desenhá-la. Fazê-la sair no inglês mais perfeito possível. Fazer-me entender, sem que eu me entendesse. Não me ocorria nada. Nenhuma resposta suficientemente boa, suficientemente crescida e adulta. E, desta vez, nem era por ter medo de falar noutra língua que não é a minha. Simplesmente não tinha resposta.
 
"Não sei. Não sei porque vim nem porque é que estou aqui. Só senti que o tinha de fazer. E fiz."
 
 
Foi isto que me saiu. Em inglês. Num inglês não tão perfeito mas o suficiente para me fazer entender. Durante todo o tempo que estive em Portugal, tentei sempre arranjar uma razão para vir: quero estudar yoga num país com mais oportunidades para tal, quero ter oportunidades de emprego, quero melhorar o meu inglês. Naquele dia, nenhuma dessas razões era a maior razão para ter vindo e, por isso, mais do que explicá-lo a alguém eu estava a responder a mim própria. Não havia nenhuma razão racionalmente explicável. A razão estava dentro do meu coração. E essa era a razão para estar aqui.
 
Sempre fui assim. Sempre segui aquilo que sentia dentro de mim. Mesmo sem saber porque é que sentia determinada coisa. E quando em 2011 pus os pés neste país pela primeira vez senti que tinha de vir para cá. E vim. Em 2015. Sem razões. Só porque aquela sensação que tenho sempre no estômago me dizia que tinha de vir.
A senhora olhou para mim surpreendida e disse que era uma razão perfeitamente válida. E, de repente, senti-me tão melhor comigo mesma. Não tinha admitido a mim mesma que não havia nenhuma razão para ter vindo para cá a não ser porque sentia que tinha de vir até àquela noite. Não admitia porque me ia sentir criança, inconsciente, louca. Teria sido isso que muita gente me chamaria se tivesse respondido isto à pergunta "Porque é que vais embora?" quando me a fizeram em Portugal.
 
 
Hoje, quase dois anos depois desta conversa, continuo a sentir que a resposta que dei foi uma resposta mais do que válida. Fui eu, sincera, a colocar o meu coração na boca e deixá-lo falar. Hoje, quase dois anos depois de ter deixado Portugal, gosto de acreditar que a razão maior para esta mudança foi o meu coração saber que era aqui que estava a sua metade. Mas, mesmo assim, continuo a responder orgulhosa que, a primeira razão da minha mudança foi não ter razão, foi uma sensação no estômago a empurrar-me. E só depois falo de todas as outras razões racionais que descobri aqui que seriam motivos para me fazer ficar.
 
Por isso, vão. Vão sempre atrás da vossa voz. Mesmo quando ela fala baixinho. Vão de braços abertos, à procura de tudo e de nada. Ninguém sabe as maravilhosas aventuras que a vida vos reserva do outro lado do mundo.
 
Com amor,
 
Joana

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