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Joana

um mundo cheio de histórias para contar

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08
Mar17

TORRE DE BABEL

Joana Santos


Reza a lenda que, na Babilónia, depois do dilúvio, os sobreviventes (descendentes de Noé) tentaram construir uma torre muito alta — a Torre de Babel — com o objectivo de alcançar os deuses. Os deuses, claro, não gostaram da ideia: afinal de contas, nenhum comum mortal deveria aspirar a ser um deus. Como castigo por esta tentativa de chegarem ao céu sem serem convidados, os deuses, para além de derrubarem a torre, ainda fizeram com que todos os homens construtores começassem a falar línguas diferentes. Num momento, todos se entendiam perfeitamente. No momento seguinte, ninguém conseguia fazer-se compreender.
Por causa de tudo isto, hoje em dia, milhares de pessoas como eu enfrentam um desafio: aprender como nos expressarmos em outra língua.
Nunca me tinha dado conta deste facto até, há quase dois anos, mudar de país. Na altura, o meu primeiro trabalho aqui foi no serviço de apoio ao cliente de uma loja, maioritariamente frequentada por imigrantes. Durante um dia de trabalho (oito horas), ouvia milhares de vozes distintas, com sotaques carregados: britânicos, polacos, checos, romenos, portugueses, italianos, gregos, búlgaros, turcos. Durante uma semana de trabalho (quarenta horas), todos nós fazíamos um esforço para que, com os nossos diferentes sotaques, nos conseguíssemos entender.
Foi um desafio e tanto. Nunca fui uma aluna exemplar a inglês: sempre achei a língua aborrecida e nunca percebi porque é que o inglês é uma língua tão universal. Mas, desde que vim para cá, tenho melhorado a olhos vistos. Ou a ouvidos ouvidos. Se dantes não conseguia distinguir uma única palavra no meio de todo um discurso nesta língua estrangeira, hoje conto histórias, faço perguntas e até consigo dizer umas quantas piadas (acreditem, ter piada noutra língua custa horrores).
Em termos de aprendizagem linguística, os meses que trabalhei naquela loja foram os mais produtivos: durante os momentos de pausa do trabalho, eu e os meus amigos polacos, búlgaros, romenos e ingleses ajudáva-nos uns aos outros e desenvolvemo-nos e aprendemos mais sobre esta língua juntos. A nossa sala de pausa acabava por soar exactamente ao momento que precedeu o episódio da Torre de Babel: todos, em diferentes línguas, tentamos chegar a um consenso sobre como se fala numa língua só.
Com tantas conversas, quase dois anos depois, já me habituei aos sotaques diferentes: hoje, tenho amigos de toda a parte do mundo e, por causa deles, começo agora a dar os meus primeiros passos noutras línguas: sei contar até dez, dizer "bom dia", "adeus", "sim" e "não" e "obrigada" em polaco, sei que os números e o abecedário romenos soam da mesma maneira que os números e o abecedário portugueses e até já sei escrever algumas letras em grego. Pelo meio, aprendi italiano (especialmente, tudo o que tem que ver com utensílios de cozinha) e sei dizer "O meu nome é Joana. E o teu?" em árabe. Colecciono amigos de toda a parte do mundo e nada me faz mais feliz do que a nossa pequena Torre de Babel.
Aliás, se há coisa que este episódio da Torre de Babel me ensinou é que, no final de contas, o castigo não foi nada de assim tão grave: há sempre alguém que nos compreende, há sempre gestos que nos ajudam a sermos compreendidos e, acima de tudo, estas conversas em idiomas diferentes até nos desenvolvem o cérebro. Os deuses não são assim tão espertos. 

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